Estácio de Sá

Fundação: 27 de fevereiro de 1955
Madrinha:
Cores: Vermelho e Branco
Presidente Administrativo:
Leziário Nascimento
Presidente de Honra: Coronel França

Em sua bandeira, a Estácio de Sá carrega o nome do fundador da cidade do Rio de Janeiro, mas sua história se confunde, sobretudo, com a formação das escolas de samba. A explicação é simples: “Vem de lá, vem de lá”, a origem da vermelha-e-branca. É a Deixa Falar, considerada por pesquisadores como a primeira de todas.

A Praça Onze, reduto do samba, da batucada e do candomblé, foi palco de personagens clássicos do mundo do samba como Tia Ciata, Donga e Sinhô. Ali pertinho, nas ruelas do bairro do Estácio de Sá, nasceu a Deixa Falar em 12 de agosto de 1928. Um dos seus fundadores é Ismael Silva, sambista de Jurujuba-Niterói que se mudou ainda criança para a região do Rio Comprido na década de 1920. Inicialmente, a Deixa Falar era bloco, mas logo se tornou escola de samba. Dentre tantas versões do surgimento do termo, a mais famosa é a do próprio Ismael, que teria feito uma analogia a uma escola normal que funcionava no bairro. Para ele, a Deixa Falar era como um celeiro de “professores do samba”.

Como escola, a Deixa Falar desfilou pouco – apenas nos carnavais de 1929, 1930 e 1931 -, e sequer chegou a participar do primeiro desfile oficial, organizado pelo jornal “Mundo Sportivo”, em 1932. No entanto, foi referência para o surgimento de outras agremiações no Rio de Janeiro, inclusive no próprio morro de São Carlos, base da atual Estácio de Sá. Lá, foram fundadas outras escolas que faziam sua folia na disputa pelo título, como “Cada Ano Sai Melhor”, “Vê se pode” (posteriormente “Recreio de São Carlos”) e o “Paraíso das Morenas”. Os laços quase consangüíneos falaram mais forte e, em 1955, essas escolas se uniram para formar a Unidos de São Carlos. Desde então, o efeito ioiô, aquele sobe-e-desce de grupos, pontuou a história da São Carlos, mas nem por isso deixou de fazer bonito no desfile principal. Dois exemplos são notórios e foram reeditados recentemente: “A festa do Círio de Nazaré”, em 1975, e “Arte Negra na Legendária Bahia”, de 1976, obras que retornaram à Avenida respectivamente com a Unidos do Viradouro, em 2004, e com a própria Estácio de Sá, em 2005.

Logo depois do carnaval de 1983, mais uma mudança: a Unidos de São Carlos vira Estácio de Sá. Suas cores, antes azul e branca, voltam a referenciar a herança direta da Deixa Falar, e o “pavilhão do amor” balança novamente em vermelho e branco. A troca no nome era para adequar a escola à sua comunidade, que já contava, na época, com integrantes e simpatizantes que iam além das fronteiras do Morro de São Carlos.

Em sua nova fase, a Estácio, já no desfile principal, tomou características de uma escola leve, descontraída e irreverente, mas nunca emplacando uma posição de grande destaque – no máximo, o quarto lugar com a primeira versão de “O tititi do sapoti”. Mas, em 1992, veio a surpresa que ninguém esperava. Quando todos davam como certo o título para a Mocidade Independente de Padre Miguel, a Estácio correu por fora e faturou o título, com o enredo “Paulicéia Desvairada, 70 anos de Modernismo no Brasil”. Este é o único campeonato da Estácio de Sá no Grupo Especial.

Em 1997, o Leão sofreu um baque e retornou ao Grupo de Acesso A, onde permaneceu por nove anos. Chegou a ir para a terceira divisão do samba, o Grupo de Acesso B, em 2005. Sua retomada ascendente, campeã dos Grupos de Acesso em 2005 e 2006 culminou em seu retorno à elite do samba. No Carnaval 2007 a escola reeditou no Grupo Especial o inesquecível enredo “Tititi do Sapoti”. Mesmo após um desfile que sacudiu a Marquês de Sapucaí, a Estácio de Sá retornou ao Grupo de Acesso.

Em 2015, com enredo em homenagem aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, a escola do Morro de São Carlos venceu a Série A e garantiu a oportunidade de desfilar mais uma vez na elite do carnaval. Assim foi em 2016, em um emocionante enredo sobre a história de São Jorge, o Santo Guerreiro.

Estácio de Sá –
O verdadeiro Berço do Samba

O bairro do Estácio de Sá é indiscutivelmente o berço do samba carioca. Centro da grande “malandragem” do princípio do século, vizinho da Praça Onze e do Mangue (Zona), foi passagem de todos os grandes sambistas que, na época, surgiram no Rio – da Mangueira à Portela, passando pelos compositores e cantores do rádio que, em pleno desenrolar da “década de ouro do samba”, lá iam garimpar a base de seu repertório, sambas maravilhosamente eternos. Francisco Alves, o Rei da Voz, cantor mais famoso do Brasil à época, é o principal exemplo.

Os botequins da região, a proximidade com a Praça Onze e da Zona do Mangue, atraíam malandros de todas as partes do Rio, alguns deles excelentes sambistas. Vinha gente de Benfica, Madureira, Providência e Gamboa. Ali era cenário para o meretrício e para as rodas de carteado. Bar Apolo, Café do Compadre…a vida noturna intensa garantiu ao Estácio a aura de Berço do Samba carioca – o “samba de sambar” aquele que conhecemos até hoje, dolente, pausado e marcado por instrumentos de percussão.

Não é à toa que a malandragem sempre esteve associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tampouco é fruto do acaso o fato de a primeira escola de samba carioca, a “Deixa Falar”, ter nascido no bairro do Estácio, tradicional reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, dedicados a jogatina e exploração de mulheres naquele alvorecer dos anos 30. Eram os chamados “bambas” que se reuniam nos botecos em culto à boemia e tudo mais que estivesse associado. O início resume-se nas destacadas figuras de Mano Edgar, Alcebíades Barcelos (Bide), e seu irmão Rubens, Armando Marçal, Ismael Silva, Baiaco, Brancura e tinha como frequentador Juvenal Lopes (“Nonel do Estácio ou “Juju das Candongas”), que mais tarde se mandou para a Mangueira, onde chegou à presidência e Heitor dos Prazeres.

A reunião que fundaria o bloco carnavalesco foi realizada no dia 12 de agosto de 1928, no nº 27 da Rua Maia de Lacerda, casa de um sargento da Polícia Militar, pai do saudoso Bijú, senhor Chystalino. Como nas imediações funcionava uma Escola Normal que formava professores para a rede escolar, Ismael Silva resolveu batizar seu grupo de Escola de Samba. “Havia aquela disputa com Mangueira, Oswaldo Cruz, Salgueiro, cada um querendo ser melhor, e o pessoal do Estácio dizia: deixa falar, é daqui que saem os professores. Daí é que veio a ideia do nome escola de samba”, conta o compositor ao jornalista Sérgio Cabral em seu livro As Escolas de Samba (1974).

A Deixa Falar durou pouco tempo, desfilando na Praça Onze nos carnavais de 1929, 1930 e 1931, e nem chegou a participar do primeiro concurso das Escolas de Samba do Rio, organizado em 1932 pelo Jornal Mundo Sportivo, pois preferiu passar para a categoria de rancho carnavalesco. No entanto, foi uma referência para o surgimento das outras Escolas, inclusive no próprio morro. Ainda no ano de 1932, o bairro do Estácio de Sá foi ali representado pela Para o Ano Sai Melhor (também chamada de Segunda Linha do Estácio). A agremiação terminou empatada em segundo lugar com a Vai Como Pode, que mais tarde se tornaria a Portela.

O tempo passou e surgiram outras escolas na favela, mas a maioria não se misturava muito entre si. Quem saía dentro da corda mesmo eram o baliza Gaguinho, a porta-estandarte Caboquinha, o Chico Macaú que encourava barricas de vinho para a bateria reforçada do Bloco da Carestia, em cuja casa havia Umbanda, Congo e Caxambu e a gente que vinha dos trabalhadores do cais, operários, artesãos, gráficos e ambulantes aos quais se juntavam malandros, cafetões e boêmios em geral. Entre as cabrochas: Atanazia do Nino, Celeste, Rosália, Odetinha, Agripina, Julieta, senhoras de respeito que faziam o coro de canto ou a fila de baianas. Entre os malandros batuqueiros, Bujú Velho, Gaguinho, Paulo Grande, Dadá Mulato, Alemãozinho, Neca Bonito e o maior malandro de todos os tempos do Estácio, Nino da Atanazia. Tinha ainda os mais esquecidos, os importantíssimos homens da corda como Jorge Burundú (da “Cada Ano Sai Melhor”), João Pimentão (da “Paraíso das Morenas”), e o Milú (da “Recreio de São Carlos”), gente que fazia questão de se expor, brigar, sofrer e carregar aquela estiva toda, ida e volta.

Após a “Deixa Falar” surgiram várias agremiações no bairro do Estácio como “Cada Ano Sae Melhor”, “Sem Você Eu Vivo Bem”, “Vê Se Pode” que se transformou na “Recreio de São Carlos”, “Paraíso do Grotão” e “Boi Azul”.

Em 27 de fevereiro de 1955 surgiu a “Unidos de São Carlos”, criada a partir da fusão das escolas “Cada Ano Sai Melhor”, “Paraíso das Morenas” e “Recreio de São Carlos”.

Houve um tempo de disputas acirradas entre a Cada Ano Sai Melhor e a Recreio de São Carlos. Porém com o tempo os casamentos e outros relacionamentos de parentesco e afetivos diminuíram as diferenças e um grupo de amigos liderados José Coelho, Manoel de Almeida (Bacural), Aurelio, Galdêncio, Miro, Antonio José de Brito, João Pintor, Maurício, dentre outros, resolveu propor a fusão das três escolas de samba. E assim nasceu a Unidos de São Carlos em um domingo, dia 27 de fevereiro de 1955.

Como se vê, até a fusão que culminou com o nascimento da Unidos de São Carlos existiam as antigas as agremiações. Após muita discussão decidiu-se por nome e cores a Unidos de São Carlos nas cores azul e branco e com sede na rua Major Freitas.

Não foi nada tranquila até se chegar às cores e o nome. Grupos contrários principalmente da extinta Cada Ano tentavam boicotar a reunião da fusão que ocorria na subida da rua Major Freitas.

Tudo acabou com a sugestão de Manuel Bacural e José Coelho indicando por aclamação Waldomiro Ribeiro, o Miro, e de que a sede da Unidos de São Carlos seria na rua Major Freitas, da extinta Cada Ano Sai Melhor.

Como devida homenagem devemos lembrar os vários componentes daquelas extintas agremiações do passado. Alguns componentes estarão listados em mais de uma escola por motivos de brigas momentâneas. Casamentos e “amigações” ou outras formas de relacionamentos de cunho religioso na Umbanda e no Candomblé.

Cada Ano Sai Melhor

Dona Eutanazia (uma das mulheres do Nino, o Saturnino da Mangueira e grande batuqueiro da Praça Onze). Miquimba, Gunã, Dádá e dona Hermengarda, Áurea, Pequenino, Galdino, Jorge Pequeno, Nelson Sapo e Eponina, Nelson China e Durvalina, Domingos, Zacaria, Joel Xangô, Vadinho, Bicho Novo e Odetinha, Dami, Aristóteles, Nô e Jorge Cornélio, Miro e Alice, dona Yolanda e seu Joca e dona Alaíde, Titico, Jorge Canário, João Luis dos Santos (Joãozinho Compositor), Repolho (José Garcia Gomes) e Hilda.

Vê se Pode –
Recreio de São Carlos

Manoel de Almeida Bacural e dona Praxedes de Almeida, Brinco (diretor de harmonia), Nonô (diretor de bateria), Simplício, os irmãos Francisco (Chicão) e Humberto de Assis, Jurandir (tocador de prato de cozinha), Mira e dona Joana, Bucy Moreira (neto da Tia Ciata), Chico e dona Santa, Belzia Paranhos de Menezes (que saia como baliza ou mestre sala desde o ano de 1929), Tertuliano da Silva Menezes (Tertúlia), Celeste e Ruth, Felipe e dona Nica, dona Santa e Porfírio, Walter Anão e Tinque, Cacilda e Nonô, Jaburu (o Otaviano), Dona Maria, Dulce, Altair e Arilda, Leopoldina e Ortivo Guedes (o Pequenino), dona Maria e seo Egydio Ramos, Alfredinho, Haroldo Alves Bittencourt, o Milu, Orlando Macuco, Alcides, Robertinho, Bimba, Roxinho, Nonô, João Luis dos Santos (Joãozinho), Esquisito, Borboleta, seo Baiano, Jovino Hilário da Costa, José Coelho, José do Espírito Santo( Pafuncio), Zizinha e Sinhá.

Paraíso das Morenas

Aurélio, dona Yolanda e Paquito, Almofada, Milta, Linda, Wilson da Bandola, Zefa, João Pintor, Lustroso, Nozinho, Cavuca (PRIMEIRO CIDADÃO SAMBA) e Fiota, Jorge Canário, Jorge Cabo e Manoel Trovão, a Muda, irmão do Aurélio e Bola Sete

Em março de 1983, a “Unidos de São Carlos” passou a se chamar Estácio de Sá.

O Estácio e suas principais
agremiações carnavalescas

Deixa Falar: A primeira Escola de Samba foi fundada em 12 de agosto de 1928, com as cores vermelho e branco. Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal, Nilton Bastos, Rubem Barcelos (Mano Rubem), Edgar Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Silvio Fernandes (Brancura), Oswaldo Vasques (Baiaco) e Aurélio Gomes foram seus principais integrantes. Desfilou entre 1929 e 1931.

Cada Ano Sai Melhor: Tinha como cores o verde e rosa. Como a Deixa Falar, também foi fundada em 1928. Nascida na localidade conhecida como “Beco da Padeira” (atual “Capela”), no Morro de São Carlos.

Vê se Pode: Teve seu nome mudado posteriormente para “Recreio de São Carlos”. com as cores verde e branco, foi fundada em 1929, no local conhecido como “Atrás do Zinco”, também na comunidade do São Carlos.

Paraíso das Morenas: A caçulinha, nascida no “Larguinho” em 1947, com as cores azul e rosa.

Unidos de São Carlos: Fundada em 27 de fevereiro de 1955, como resultado da fusão das três últimas agremiações citadas acima e com as cores azul e branco. Mudou as cores para vermelho e branco e o nome para…

Estácio de Sá: Adotado em março de 1983 com a intenção de retratar a nova realidade da Escola, que passou a contar com integrantes de toda a região do entorno do Estácio.

Departamento Cultural
G.R.E.S. Estácio de Sá

Referências

CABRAL, Sérgio. As Escolas de Samba: o quê, quem, como, quando e por quê. Rio de Janeiro: Fontana, 1974.
NOGUEIRA, Carlos. Samba, cuíca e São Carlos. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2014.
Depoimento de Ismael Silva ao Museu da Imagem e do Som (MIS), 1969.
BRUNO, Leonardo. “Série especial capítulo 4: a São Carlos vira Estácio de Sá”. Jornal Extra, Rio de Janeiro, publicado em 04/02/2015. Acesso em: 29/08/2018.
Disponível em: https://exe.io/qmkjNPC
FRANCESCHI, Humberto. Samba de Sambar do Estácio: 1928 a 1931. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2010.
SIMAS, Luiz Antônio; LOPES, NEI. Dicionário da História Social do Samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

Fonte: Site Oficial da Escola

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