Inocentes, Padre Miguel e Império Serrano entram na disputa pelo título do acesso

0
Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

LINS IMPERIAL

Após 10 anos sem pisar no solo sagrado da Sapucaí, a Lins Imperial abriu a segunda noite de desfiles da Série Ouro se destacando no geral em alegorias e fantasias, e contando de forma bastante leve a história do humorista Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum. Alguns pontos em evolução, como a abertura de alguns buracos, devem fazer com que a escola perca alguns décimos. A harmonia também esteve um pouco irregular com as alas cantando bastante o samba e outras nem tanto. Com o enredo “Mussum pra sempris – Traga o mé que hoje com a Lins vai ter muito samba no pé”, a escola encerrou seu desfile com 55 minutos.

A escola teve como o objetivo, homenagear um de seus filhos mais ilustres. Se utilizando do “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, a verde e rosa pretendeu mostrar as diversas faces do multiartista Carlinhos. Sua história foi contada de forma leve, com as fantasias tendo fácil leitura e bem irreverente como era o artista. No primeiro setor, “Da Cachoeirinha, lá vai Carlinhos ser estrela na vida!”, mostrou-se à conexão do que há entre o humorista e a verde e rosa do Lins.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

Já no segundo setor, “Carlinhos do Reco-Reco e o sucesso dos Originais do Samba”, retratando sua paixão pelo samba. No terceiro setor “Carlinhos da Mangueira e do Flamengo”, rememora a ligação do homenageado com a Mangueira e o Flamengo. Por fim, no quarto Setor “O Astro Mussum”, retrata a face humorística que ganhou a TV, o circo e o cinema. E no último setor, “Mussum Pra Sempris”, celebra Mussum eternizado nos corações e nas redes de muitos brasileiros.

A bateria de Mestre Átila realizava uma bossa no trecho do samba “No quintal de folhas secas, tocou surdo de Primeira”, fazendo alusão ao toque consagrado dos surdos da bateria mangueirense. Neste momento, os ritmistas também faziam coreografia, seguindo o balanço da bossa, se movimentando de uma lado para o outro, posicionados de frente para o público. A rainha de bateria Danny Fox e o rei Johnathan Avellino chamaram bastante atenção pela simpatia e fantasia “Mangueira teu cenário é uma beleza”. O ator Hélio de La Peña, amigo do humorista homenageado, também participou do desfile.

INOCENTES DE BELFORD ROXO

A Inocentes de Belford Roxo apresentou um belíssimo conjunto visual em seu desfile, com destaque para as fantasias, com cores variadas e bastante volume; a escola encantou visualmente, porém, a evolução deixou a desejar e pode comprometer uma melhor colocação na apuração. Logo no início, o carro abre-alas apresentou dificuldades de se locomover pela Avenida e ao menos dois buracos foram abertos, um no setor 3 e outro no último módulo de julgadores. Além do conjunto visual, a entrada com a comissão de frente e o primeiro casal também foram destaques.

Tudo começou com uma saudação a Oyá, através da representação da cabeça de um búfalo logo a frente do abre-alas. O primeiro setor mostrou o tambor como a comunicação entre homem e os orixás. O segundo setor representava a realeza africana e a terceira alegoria mostrava uma perspectiva acerca do Pátio do Terço, local que hoje é o grande palco da Noite dos Tambores Silenciosos. No geral, o enredo, que é um dos mais densos deste ano, se mostrou de fácil compreensão. O carnavalesco Lucas Milato levou a história do povo preto com muita competência.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

A escola apresentou um conjunto de alegorias de extremo bom gosto, apostando no uso das cores fortes. O abre-alas, “Tambores ancestrais”, visualmente era muito impactante e segundo carro fez referência aos cortejos de coroação dos reis, apesar de bonito, quando entrou na Avenida, arrastou na grade e uma da esculturas sofreu um pequeno dano.

A bateria do Mestre Julinho representou São Benedito, os 250 ritmistas da Cadência da Baixada realizaram bossas que levantaram o público. A rainha Natália Lage estava exuberante com sua fantasia e esbanjava carisma.

ESTÁCIO DE SÁ

Terceira escola a desfilar no segundo dia de apresentações da Série Ouro, a Estácio de Sá se destacou com a Comissão de Frente e o primeiro casal. Contudo, apesar do bom início, a escola perdeu força estética, cometeu erros em fantasia, que acabaram impactando na leitura do enredo. O último carro também destoou dos dois primeiros pela simplicidade e acabamento ruim. A agremiação reeditou o enredo em homenagem ao Flamengo, com título “Cobra Coral, Papagaio Vintém, #VestirRubroNegro, Não tem pra ninguém”, e passou pela Sapucaí em 54 minutos.

Os carnavalescos trouxeram uma releitura sob a ótica de um torcedor que estava na barriga da mãe no desfile de 1995. O personagem criado conta a história do desfile e representa a torcida, que é a principal homenageada. Em um primeiro momento, a vermelho e branco estaciana trouxe as origens do clube, desde o grupo de regatas, passando pelos esportes olímpicos, até chegar ao futebol. No terceiro momento, foram relembrados os grandes títulos conquistados pelo Flamengo, principalmente no âmbito internacional. O desfile foi encerrado com uma grande “festa na favela”, como a torcida do rubro-negro canta após as vitórias no Maracanã.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

“Paixão que Arde Sem Parar”: A primeira alegoria levou as cores do Flamengo e da escola. O símbolo do clube apareceu logo na frente, e um urubu, mascote do clube, fechava a parte traseira do carro. Alguns ex-jogadores desfilaram, como Athirson, Nélio e Adílio, que era o destaque do tripé. Personagens icônicos da torcida do Flamengo, como “Chapolin” e o “Anjo Rubro-Negro” desfilaram no último carro. Os músicos Xande de Pilares e DJ Marlboro também passaram pela Avenida. A rainha Jack Maia esbanjou luxo e simpatia à frente da bateria, que veio com os rostos pintados e roupas nipônicas em referência ao título mundial no Japão.

ACADÊMICOS DE SANTA CRUZ

A Acadêmicos de Santa Cruz realizou uma justa homenagem ao ator, cantor e diretor Milton Gonçalves. A verde e branco apresentou na Avenida, o enredo “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”. A agremiação da Zona Oeste se destacou com uma bela apresentação da bateria de Mestre Riquinho, da sua Comissão de Frente e do conjunto alegórico. Porém, pecou em evolução e harmonia, abrindo um buraco no setor 6, em frente a última alegoria. O desfile durou 53 minutos.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

O fascínio de Milton com os palcos foi mostrado no terceiro setor. Sua estreia nos palcos de teatro, em 1956, foi lembrada pela ala “Soldado de Chocolate”. Os ritmistas estavam vestidos de metalúrgicos, em alusão a peça “Eles não usam black-tie”. O último setor fez referência à boêmia carioca. As alas retrataram o amor de Milton pela Mangueira e Flamengo. A defesa pela liberdade artística diante da censura durante a ditadura também foi lembrada em uma ala. As novelas de sucesso que Milton atuou, como “O bem amado” e “Irmãos coragem” vieram representando os personagens vividos pelo ator.

A musa Paula Lacer, com a fantasia “Sacerdotisa da rainha diaba”, conquistou o público com sua simpatia e samba no pé. Ela veio a frente da ala “A rainha diaba – uma revolução”, que remete ao personagem homossexual interpretado por Milton em filme homônimo, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura. Com este trabalho, Milton Gonçalves é definitivamente reconhecido por seu talento e capacidade de debater temas de relevância estrutural e cultural.

UNIDOS DE PADRE MIGUEL

A Unidos de Padre Miguel apresentava pelo menos a melhor abertura de uma escola na Série Ouro até então, juntando elemento alegórico da Comissão de Frente, pede passagem com a cabeça do boi vermelho, e o abre-alas trazendo a grande árvore sagrada. Mas justamente o abre-alas que compunha o conjunto que mexeu com o público desde os primeiros minutos, apresentou problemas que geraram consequências negativas para a evolução. A presença de um enorme buraco entre os setores 6 e 8 deve custar preciosos décimos. O canto da escola, a Comissão de Frente e o primeiro casal também se destacaram. Com o enredo “Iroko – É tempo de Xirê”, a vermelho e branco foi a quinta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, encerrando sua apresentação com 52 minutos.

A agremiação da Vila Vintém contou na Avenida histórias e crenças em torno de Iroko, a Árvore-Orixá de raízes fortes, que representa a dimensão do tempo e através da qual todos os demais Orixás desceram à Terra. A história se iniciou no poder da criação, na semente sagrada que deu origem à vida. Em um segundo momento deu-se destaque aos elementos vitais de transformação: A terra, o fogo, a água e o ar. Por fim, no terceiro setor, a escola trouxe a comunhão entre os Orixás. Ainda que um pouco denso na sua essência, a homenagem ao orixá foi entendível em sua maioria, principalmente na questão visual e na presença de alguns elementos que remetiam ao tempo como as ampulhetas.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

O intérprete Guto estreou como voz oficial da escola ao lado de Diego Nicolau que já está no seu terceiro desfile. A bateria de Mestre Dinho vestia “no ritmo do tempo”, apresentando a marcação do compasso do tempo, roupa de gala para o Xirê. A rainha de bateria Karine Costa era “A Beleza da Dança da Avania”. A ala de passistas “o brilho dos minerais”, apresentou Iroko dos ciclos da vida e também da vida sem vida do brilho dos minerais que brotam das profundidades da terra. O carnavalesco Edson Pereira foi muito aplaudido ao final do desfile e ouviu até alguns gritos de “É campeã”.

ACADÊMICOS DE VIGÁRIO GERAL

O que começou promissor e terminou de forma caótica, assim pode ser definido o desfile da Acadêmicos de Vigário Geral. A Comissão de Frente emocionou o público e trouxe uma mensagem muito forte logo no início, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira também merece destaque. Visualmente a escola cometeu alguns erros, porém, o quesito mais problemático foi a evolução, devido uma grande dificuldade de locomoção do segundo carro, que ocasionou vários buracos ao longo da Avenida.

Um dos pontos altos do desfile foi o samba. A obra rendeu muito bem, impulsionado por uma excelente interpretação de Tem-Tem Jr., juntamente com todo o carro de som. Foi possível observar um canto satisfatório por parte da comunidade. Uma das partes de maior destaque era o refrão principal, o início do samba, apesar de bastante melodioso, proporcionou um canto satisfatório. Foi possível observar o público nas frisas e arquibancadas cantando junto.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

A bateria de Mestre Luygui representou os Filhos de Gandhi. A fantasia tinha uma fácil leitura e proporcionou aos 219 ritmistas tocarem sem dificuldades. As bossas realizadas empolgaram frisas e arquibancadas. A rainha Egili Oliveira foi outro destaque, apresentando uma fantasia na cor branca, que retratava uma saudação a Oxalá.

IMPÉRIO DA TIJUCA

O Império da Tijuca desfilou na madrugada desta sexta-feira no Sambódromo e contou, de forma brilhante, a história do GRANES Quilombo. O carnavalesco Guilherme Estevão trouxe para a Avenida, histórias sobre a agremiação criada pelo compositor e intérprete Candeia, e fez várias referências ao eterno baluarte da Portela. A escola passou na Avenida de forma correta, sem erros de evolução, em 54 minutos de desfile.

O desfile teve início com a história de criação da Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo e seu principal fundador, Candeia. Neste primeiro momento, a escola abordou o Quilombo dos Palmares, o mais famoso do país, e a origem dos batuques afrodescendentes que se transformam no samba como conhecemos hoje. No segundo setor, a agremiação trouxe a resistência do povo preto em suas várias vertentes, como a música, arte e religião.

Na sequência, o tema foi aprofundado na música e arte oriunda do povo preto. Por fim, a verde e branco da Formiga relembrou os carnavais da GRANES Quilombo, que desfilava como um bloco, sem competição, nos bairros do subúrbio carioca, e ainda promoveu um “encontro” entra a escola de Candeia e o Império da Tijuca.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

Desfilaram Selma Candeia (filha de Candeia), Vera de Jesus (Neta de Clementina de Jesus), Nilcemar Nogueira (neta de Cartola) e Geisa Ketti (Filha de Zé Keti), a cantora Tereza Cristina e o músico Tunico, filho de Martinho da Vila. Fundador da GRANES Quilombo junto a Candeia, Rubem Confete também passou pela Avenida. As atrizes negras Cinnara Lea, Karen Mota, Aline Borges, Aline Wirley, Dandara Albuquerque, Jeniffer Nascimento, Katiuscia Ribeiro, Isa Black e Juliana Alves se apresentaram com a agremiação. Adriana Salles, a catadora que viralizou na internet sambando no ensaio técnico da escola, veio à frente do desfile.

IMPÉRIO SERRANO

O Império Serrano se redimiu dos erros cometidos no último Carnaval, com um perfeito espetáculo em evolução, com destaque para o canto da escola, bateria do estreante Mestre Vitinho e a Comissão de Frente de Patrick Carvalho, que mesmo com a falha do efeito especial no segundo módulo, resumiu de forma clara o enredo.

A escola passou com um menor contingente em comparação a outras do mesmo grupo, mas entregou alegorias e fantasias de bom gosto. Com o enredo “Mangangá”, de autoria do carnavalesco Leandro Vieira, a verde e branco encerrou a última noite dos desfiles da Série Ouro com 53 minutos.

O tema transformou em narrativa carnavalesca a história de Manuel Henrique Pereira, capoeirista baiano que tornou-se uma forte liderança na luta contra a insubordinação de homens e mulheres negros. Seu nome mais popular, Besouro Mangangá. Dividido em três setores, na abertura “Firma ponto pro corpo fechar”, a escola mergulhou em um ambiente que evoca a ancestralidade negra. Em seguida, “Negro feito na cabaça não se rende a coronel”, a abordagem foi direcionada ao aspecto religioso, segundo mitos, o orixá fecha o corpo do homenageado para adiar a sua morte.

Foto: Allan Duffes e Nelson Malfacini

Por fim, “Serrinha canta o justiceiro vingador”, o Império Serrano abordou a vida de trabalho do capoeirista e apresentou seus algozes. Um enredo de fácil leitura que trouxe de forma cronológica os fatos que o carnavalesco escolheu como mais relevantes da vida do capoeirista. A escolha por um recorte mais específico da vida do homenageado acabou por trazer um desfile menor em comparação com outras escolas do grupo.

Durante o desfile a escola apresentou três alegorias. O abre-alas chamava-se “Besouro, saravá, Serrinha”, e trazia o capoeirista homenageado e a coroa do Império sendo resguardada por Orixás, destaque para a utilização de materiais como ferro retorcido que apresentava um efeito interessante, assim como a diferente estética das esculturas de frente, mais voltado para o afro.

SIGA-NOS

INSCREVA-SE

VÍDEOS EXCLUSIVOS

Artigo anteriorLIGA-RJ – Desfiles Oficiais
Próximo artigoImperatriz Leopoldinense
redacao@carnavalcarioca.net.br

Deixe uma resposta:

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.